sábado, 18 de dezembro de 2010

Um Conto - Por Emerson Wiskow - O primeiro milagre

Um Conto - Por Emerson Wiskow - O primeiro milagre

Ele estava ali, sentado em minha frente. Barbudo, olhos lindos e vivos. Sereno. Sorriu e bebeu mais um gole de vinho. Tinto, é claro. Tínhamos isto em comum, nós dois gostávamos de vinho. Ele estava morando em Porto Alegre há quatro anos. Pouquíssimas pessoas sabiam disto.
Lembro-me da primeira vez em que o vi, foi numa noite de sexta-feira, fazia calor e o cabaré estava cheio. Entrei, corri os olhos pelo ambiente a fim de ver quem estava lá. Muitas caras conhecidas, principalmente entre as garotas. Entre as mulheres que trabalhavam naquele inferninho tinha uma que eu gostava muito. Era por causa dela que eu estava ali aquela noite. Eu queria vê-la.

Uma vez por semana eu passava naquele cabaré, geralmente nas sextas-feiras. O que não era muito bom, porque era justo nas sextas que havia mais movimento na casa. E sendo assim, muitas vezes eu tinha que ficar esperando Patrícia por um bom tempo. Quase sempre ela estava acompanhada por algum cliente. Business, money, dinheiro, capim, é isto aí meu amigo.

Patrícia era uma garota de programa, uma prostituta, e eu acabei me envolvendo com ela. Com poucas mulheres eu me sentia tão bem, tão feliz, como quando estava na companhia dela. A primeira vez em que eu a vi, Patrícia estava dançando com um cara, cabaré cheio, sexta-feira, noite quente... Eu estava lá, sentado, sozinho, bebendo uma cerveja no meio daquela fumaça de cigarro, daquele ar quente e viciado, misturado com todos os odores possíveis.

Entre uma tragada e outra de cigarro, um gole e outro de cerveja, eu observava a fauna dançar animada. Quem dançava? Ora, o cabaré era freqüentado basicamente por operários das mais diversas áreas, motoristas de caminhão, malandros, assaltantes, vendedores de drogas, bêbados, suburbanos dos mais variados tipos e perdidos, como eu.

Alguns dançavam sozinhos, mas a maioria dos caras dançava acompanhado por alguma garota. Havia também as putas velhas. Mulheres barrigudas, enrugadas, gordas e feias, transformadas pelas noites de morcego, pela bebida e muitas vezes, pelas drogas. Eu não dançava, primeiro porque não sabia, depois porque não tinha coragem de dançar num puteiro. Sim, eu sou um cara tímido.

Mas admito que muitas vezes senti vontade de pegar uma «índia» e sair dançando pelo salão feito um louco. Eu ficava só na vontade, olhando, olhando... E foi numa dessas, enquanto eu observava a mulherada dançar, que notei Patrícia. Linda, suave, deslizando entre a chinelagem, entre homens suados e bêbados. E lá estava ela, dançando animadamente, sorrindo.

Bebi um outro gole de cerveja, dei uma tragada no cigarro e fiquei observando ela deslizar. Eu, encantado. Terminei a cerveja e pedi outra enquanto esperava o melhor momento para chamar Patrícia. Esperei, esperei, até que finalmente ela ficou sozinha. Era a minha oportunidade.

Você já ficou receoso em chamar uma puta para conversar? O seu coração já bateu acelerado, você já ficou nervoso, ansioso e inseguro pelo fato de querer falar com uma prostituta? Pois bem, eu fiquei assim, meu velho. Fiquei assim quando resolvi chamar Patrícia para conversar.

Quase me caguei todo. Justo eu, justo eu que já tinha conversado com centenas de prostitutas. Justo eu que já havia varado madrugadas em todos os tipos de inferninhos. Justo eu, macaco velho, putanheiro. Tremi para chamar Patrícia, mas chamei.

Eu tinha bom faro, Patrícia era doce e encantadora, além é claro, de ter uma bunda maravilhosa. Dessa noite em diante começamos a ter uma relação que rompeu as fronteiras do inferninho. As vezes eu dormia em sua casa, conheci a filhinha dela, saíamos como dois namorados e desfilávamos de mãos dadas pela cidade.

A relação comercial ficou de lado, o comeu pagou foi esquecido por ela. Pelo menos para mim ela não cobrava. Bom, foi assim que eu conheci Patrícia. Agora vamos voltar para a noite em que eu conheci o cara que agora eu sei quem é realmente. Como eu dizia, era uma sexta-feira quente e o cabaré estava completamente cheio. Eu estava bebendo uma cerveja enquanto esperava por Patrícia.

Leia este tema completo a partir de 20/12/2010

1 comentário:

  1. Tenho a estranha sensação de que algumas pessoas sentem alguma timidez em comentar os contos do Emerson talvez presas por «cadeias» morais...é pena porque se trata aqui de um bom escritor, quer dizer, um escritor daqueles que são mesmo bons...daqueles que não andam por cá para ver andar os outros.

    Daniel

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