domingo, 20 de fevereiro de 2011

A CIGANA - Conto de Liliana Josué 

A CIGANA - Conto de Liliana Josué

A manhã já se encontrava bem quente e iluminada. Por ela passeava o majestático globo incandescente. Magnífico exaltava a vida, sufocava-nos embalando os passos, dando-lhes um ritmo cadenciado e lento. Quando se condoía tornava-se brando beijando as faces do mundo, outras vezes, para demonstrar o seu poder, insurgia em arroubos violentos, só permitindo ser venerado em respeitosa distância.

No entanto, ao despertar, muito cedo, estremunhado, esquecia-se da sua realeza. Aí tornava-se uma criança doce e morna. E ao fim do dia, ensonado, escondia-se no horizonte adormecendo calmamente sem se importar com as carícias dos olhares.

Maria do Rosário levantou-se num salto assustado, olhou para o relógio e num gritinho abafado reclamou contra si própria: - Meu Deus lá adormeci eu outra vez.
O gato, deitado aos pés da cama, ergueu o focinho de orelhas espetadas mostrando um ar curioso, mas depressa se refez poisando novamente o focinho sobre o lençol enquanto se esticava preguiçosamente ronronando feliz.

Ela assustada mas numa sonolência incontrolável dirigiu-se, ao tropeção, para o duche. A água morna, quase fria, invadiu-lhe o corpo e a alma dando-lhe ânimo. Seguidamente engoliu o pequeno-almoço, escovou os dentes num ápice, fez uma festa no gato e abalou porta fora.
O calor já ardia nos olhos mas a pressa sobrepunha-se, e lá seguiu ela de passo curto e ligeiro envolta nos seus pensamentos.

Alguém um pouco mais atrás chamava:
- Pst, menina... ó menina... - em tom meio cantado.
De inicio não acatou o chamamento falando com os seus botões: - De certeza não é comigo – continuando a caminhada apressada para o seu destino.
A voz tornou-se mais próxima e insistente:
- Menina..., ó menina, olhe para mim só por um bocadinho... .
Rosário um tanto confusa e ainda duvidosa parou voltando-se para trás.

Era uma cigana de corpo franzino, pele bem trigueira, cabelo preto enrolado sobre a nuca em forma de carrapito e olhos miudinhos muito ladinos. A idade física entre as duas deveria estar muito próxima mas, enquanto em Rosário pesava o tempo das suas vivências integradas na sua civilização, a cigana carregava a dos conhecimentos característicos da etnia cigana, passados de gerações para gerações.
- Espere um bocadinho menina, que eu tenho de «le dzer» uma coisa muito séria.
Maria esquivava-se alegando ter onde ir e já estar atrasada. Mas a cigana insistia em tom aflito:
- Por favor menina, oiça só o que tenho «pra le dzer», olhe que é para seu bem -, continuava em seu tom quase gritado, devido à distância a que já se encontravam, e atirou a sua ultima cartada:
- Olhe que está cheia de mau olhado, e já de há muito tempo.

Leia este tema completo a partir de 21/2/2011

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